Por que gostamos de perguntar?
- “João, do que é que você gosta?”
- “Adivinha.”
- “…”
- “É amarelo, gruda no cabelo e não vai no aspirador de pó?”
Foi a pergunta do mês. Rendeu no quarto, rendeu nos corredores, rendeu o dia todo. E rendeu outras perguntas: por que é que a gente pergunta? E do que é que a gente gosta?
A Yasmim gosta das filhas. Gosta da música do pé, da Rosa, da Flor, do bebê. Gosta de música. E de ver o chapéu voar, sem parar na cabeça.
A Camilly gosta de rir, de bater palmas, de música e de dormir. Dorme dias a fio e, quando acorda e nos vê, quer cantar.
“Já sou grandinha,
sou quase uma mocinha,
sou a Camilinha”
- “Ah! Uh!”. E bate palmas, sorri e olha pra mãe. A Camilly gosta de ouvir cantar.
O Pedro gosta de inventar. “Daqui a dez semanas chegam os doces e o bolo”, nos explicou, enquanto montávamos guarda na porta do seu quarto, esperando o bolo chegar. “Quanto são dez semanas?”. “São mil dias”, ele dizia, indo em direção ao elevador. “Quanto são mil dias?”. “São muitos anos”, ele entrava no elevador, indo em direção à casa. “Vamos esperar”. Era o tempo que ele gostava de inventar, até chegar o bolo que gostávamos de esperar.
“Qual é o cúmulo da inutilidade?”, nos perguntou a Vitória. Pensamos e arriscamos algumas respostas. “Não”. “Não”. “Não”, ela gostava de responder. Mil mímicas depois, arriscamos outras respostas. “Acertaram”, ela sorriu, ao ouvir o que queria ouvir. Ficou feliz e nos fez muito mais perguntas. Gostava que acertássemos, desde que antes errássemos bastante.
E na quarta-feira, voltou a nos perguntar: “o que que é cúmulo?”
“Como faço para engordar?”, perguntou o Dr. Montanha, que também gosta de perguntar. Ouviu várias respostas: “Carboidrato. Faz uma bomba de carboidrato”. “Milkshake”. “Come um pacote de negresco e tome uma lata de leite condensado por dia”. “De canudinho?”. “De canudinho”. As enfermeiras, escriturárias e as médicas também gostam de receitar.
Por que as pessoas gostam do que elas gostam?
O Dr. Luigi gosta de divagar. E começa a falar como se soubesse exatamente o que vai dizer. Mas, quando termina, a gente fica com a impressão de que ele não podia ter pensado tudo aquilo quando abriu a boca para falar. Acho que ele gosta de puxar os fios que abrem as caixas onde guardamos as idéias absurdas que a gente às vezes prefere guardar, só pra ver onde vão dar. Acho que responde pelo puro prazer de raciocinar.
A faxineira gosta de sorrir. Quando nos vê, põe a mão no coração, sorri e diz que estava com saudade. Gosta de nos ver porque gosta de sorrir e de dizer que gosta de nos ver.
O Alexandre, do Raio-X, gosta de nos cumprimentar: “salamaleicum”. E nós gostamos de dizer “salamaleicum” antes dele, só para ele responder “aleicumsalam” quando o que ele queria era dizer “salamaleicum”.
A Patrícia gosta de rir melodicamente. Ao seu lado, sua colega gosta de rir ritmicamente. São considerações que o Dr. Lord gosta de fazer.
O Dr. Lord gosta de não fazer o que lhe pedem para fazer. E gosta de cozinhar de repente.
Na UCA, um casal nos comunicou - por mímica - que o filho estava em cirurgia. Entendemos que tinham cortado seu umbigo ou feito circuncisão. O Dr. Lord, aproveitando o gesto de “cortar” do casal, puxou uma frigideira e assou a “carne” cortada. Assou, temperou, virou, serviu. Cortei, dura. Espetou com o garfo. Dura. Rasgou com o dente. Dura. Jogou no lixo. O Dr. Lord gosta de fazer o que não esperam que ele vá fazer.
Como perguntar, assim, de repente: o que é, o que é?
- É amarelo, gruda no cabelo e não vai no aspirador de pó?
Por Dr. Montanha - Fernando Paz