Quem é?

Agosto 26th, 2009 de Doutores da Alegria

Vocês certamente já viram muito essa figura, que de tão boa já foi estampada em tantos lugares, ocasiões e formatos. Pois a garota propaganda do documentário dos Doutores da Alegria é a Biti, também chamada de Doutora Valentina Mosquito, coordenadora artística do programa de palhaços nos hospitais de São Paulo.

Um dia ela me contou que quando criança ficava pulando de um sofá para o outro sem parar, enlouquecendo os pais. Eles pediam para que parasse e ela seguia pulando. Até que o pai lhe perguntou: Biti, por que você fica pulando de um sofá para o outro? E ela respondeu: Porque eu gosto!

Essa história ficou na minha cabeça e esta é a Biti: cheia de idéias, conjecturas, teses, reflexões, mas no final, é tudo muito simples, o querer é quem manda.

A Biti trabalha com os Doutores da Alegria há alguns anos. Já trabalhou nos hospitais de São Paulo e do Rio de Janeiro. Lá, dirigiu o espetáculo “Inventário”. Biti e os palhaços levaram para o palco uma feliz reflexão sobre o nosso trabalho nos hospitais.

Por bastante tempo, a Biti foi minha fiel interlocutora, conversávamos através dos relatórios dos palhaços e assim nos conhecemos ainda mais. Aliás, ela adora a comunicação via cartas. Freud e Jung iriam adorar trabalhar com ela.

A Biti tem o olhar atento, criterioso, e trata as dificuldades do dia-a-dia de um palhaço no hospital de forma muito amável e competente. Sabe fazer brotar nos palhaços o que eles têm de melhor. Foi um bom encontro. Ela voltou do Rio quando em São Paulo estávamos buscando alguém que pudesse estudar e identificar a linguagem artística que nós, palhaços, utilizamos nos hospitais. Será que tem linguagem?

Então ela começou um trabalho de campo, acompanhando as duplas de palhaços, ora observando o trabalho, ora trabalhando e deixando que um da dupla olhasse o trabalho de fora. Além disso, é a leitora assídua dos relatórios mensais que cada dupla escreve ao final do mês, comentando-os e aprimorando a expressão escrita dos palhaços.

Com o passar do tempo, fui percebendo que ela trouxe à função de coordenadora artística do programa nos hospitais uma qualidade importante. Mais do que um julgamento sobre como ser mais efetivo como palhaço ou que um olhar de diretor de cenas, era um olhar investigativo que levantava questões cotidianas fundamentais. Bem, não vou ficar falando sobre algo que inclusive gerou uma publicação, o Boca Larga de 2008. Está tudo registrado.

Biti, ou Beatriz Sayad, como consta em seu passaporte, está indo pra outros ares. A caminho do seu desejo, vai dar uma paradinha no programa francês Le Rire Medicin, e trabalhar com os palhaços de lá. Daí segue viagem. Uma viagem artística.

Quem disse que mosquitos não são aves migratórias?!

Nosso beijo e até já.

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Enquanto isso no Hospital Santa Marcelina…

Maio 28th, 2009 de Doutores da Alegria

Meu parceiro Mané quer abrir um consultório. A ideia é dele; e só ele, do alto de sua genialidade, tem o poder e o dever de contar a todos nós de que se trata essa brilhante invenção. Posso adiantar aqui que não se trata de um consultório médico como tantos por aí. Trata-se de um consultório de psicologia, psiquiatria, ou psiuqualquercoisologia especializado em tratar palhaços. “Terapia para Palhaços”. Para maiores informações falem com Dr. Mané Pereira. Ah, fiquem sossegados, não será ele o terapeuta. Muito menos eu. Estou mais para paciente número um deste digníssimo empreendimento. Já peguei minha senha.

Digo isso porque, como nem todos sabem, meu ano começou mais tarde no hospital Santa Marcelina. Cheguei um mês atrasada e não foi por causa do trânsito na Radial Leste. Foi porque estive em Recife num intercâmbio besteirológico entre os Doutores da Alegria e o Le Rire Médecin, um grupo francês de palhaços que trabalham em hospitais. É, tão pensando o quê? Besteirologista também estuda, faz intercâmbio, palestra, essas coisas de doutor… Em Recife conheci dez besteirologistas importados da França! Très chic, Soutien, Abajour, Crêpe Suzette! Encontrei também nossos amados parceiros pernambucanos… Parraxaxá, Buxada de Bode, Bloco do Miolo Mole, Bolo de rolo! E nos embalamos todos num maracatu valsado durante 23 dias. Foi bom, mas agora… Terapia na Lola!

Calma, calma… Já vou explicar. Chego eu, um mês depois do combinado, no hospital onde meu parceiro esteve labutando durante todo o ano de 2008 e no início de 2009. Todos já o conhecem, já o amam, idolatram-no! Com aquele charme que Deus lhe deu, um carisma de levantar multidões, por onde passamos todos gritam em letras garrafais: MANÉÉÉ!!!! Enfermeiras desmaiam, mães se derretem, crianças brilham, os homens não resistem às suas piadas e trocadilhos e gritam: É O MAIOR! É O MAIOR! E eu lá, ao lado do SUPER STAR, tendo que impor minha personalidade, jogar meu charme, ajeitar meu cabelo, dançar, sambar, cantar, sapatear, assobiar e chupar cana, tudo ao mesmo tempo para poder ao menos ser notada! OI GENTE!!! EU TÔ AQUI! EU SÔ LEGAL! Confesso que achei que não teria a menor chance.

Mas eis que meu dia chegou! Pasmem, senhores! Fui pra Rede Globo! Apareci na Ana Maria Braga! Fiquei famosa também! Muitos me viram na telinha e passaram a falar comigo depois disso, embora ainda não soubessem meu nome. L-O-L-A!!! Guardem esse nome!!! L-O LO L-A LA! LOLA! Subi na escala Richter, escalei o meridiano de Greenwich, peguei um Ita no Norte e finalmente cheguei! Fui promovida a ter o direito de andar com dignidade ao lado dele: Dr. Mané Pereira! UFA! Haja terapia!

Mas não se iludam. Não basta você saber que precisa de terapia para dizer ao mundo que está curado… Muita calma nessa hora. Consegui estar a altura de Dr. Mané aos olhos dos outros, que isso fique claro. Mas e aos meus olhos? E aos olhos do Mané? Como viver plenamente, sem muitas expectativas nem frustrações este encontro que estava escrito nas estrelas? (Sobre astrologia falaremos no próximo relatório.)

Ah! Aí a história começa a se aprofundar. Vira papo cabeça. Quantas sessões semanais esta Lola vai precisar para vencer esta etapa?

Bom, entre encontros e desencontros seguimos tentando. O mês foi agitado. Mané engoliu uma vitrola e saiu pelos corredores soltando música. A sorte é que ainda conseguimos acionar suas orelhas para desligar e ligar a música quando bem entendermos. Ah, é possível também mudar de música, apertando o nariz apenas uma vez, na horizontal. Em uma bela terça-feira a vitrola de Mané fez a mulherada chorar com uma seleção romântica do Rei Roberto Carlos. Eu fui a primeira a me desmanchar em lágrimas… Pôxa! Tô tão sensível… Mais uma sessão. O terapeuta vai ficar rico.

Na Oncologia, Matheus gosta mesmo é de ver a gente se estapeando. Não só o Matheus, quase todos por lá se divertem ao nos verem batendo a cara na parede, levando bofetada sem querer querendo, jogando água um na cara do outro. E a Amanda ficou muito feliz em rasgar com toda a energia a foto da ex-namorada do Mané. Aquela gorila peluda de batom vermelho nunca mais dá as caras por ali.

Na UTI nos despedimos do Titi que foi para Jundiapeba. Nosso querido amigo teve que mudar de casa. Logo agora que o havíamos conquistado! E na cama dele, logo depois aparece o Caio. Nosso primeiro encontro foi lindo. Ele estava bem fraquinho e desanimado, segundo as enfermeiras. Fomos escutar seu coração e o Mané não sabia onde era. Pedimos que Caio nos mostrasse onde ficava, ele apontou com a mão e qual não foi nossa surpresa! O coração do Caio sambava! Samba desses de verdade mesmo, com bateria, mestre salas, porta bandeira… Tinha até ala das baianas! Os olhos de Caio brilharam! Os nossos também! Que encontro! A enfermeira, vendo isso saiu dizendo: “Nossa, eu vou embora pra não chorar!” Acho que ela não gosta de samba.

Passamos o mês tentando marcar um café da manhã com a equipe do hospital. Finalmente conseguimos marcar para o dia 19/05. Estou na maior expectativa, este encontro à paisana com a equipe que convive diariamente com a gente é muito importante. Sem falar, é claro, nos quitutes e delícias matinais.

Bom, caros amigos, despeço-me por aqui. Que todos estejam bem. Qualquer coisa, precisando de uma terapia, passem pelo Santa Marcelina e peguem suas senhas. O consultório será inaugurado em breve.

Um abraço sincero,
Dra. Lola Brígida

Dr Lola

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O que era para ser e acabou sendo

Maio 18th, 2009 de Doutores da Alegria

Caro leitor a quem dedico este relato mensal feito por mim mesmo, com a habilidade do meu intelecto e a ponta dos meus dedos. Se você não percebeu ou não foi comunicado eu lhe digo agora: Ela está no meio de nós. Sim, ela mesma. Está aqui, para que, junto comigo (Dr. Mané Pereira) possamos realizar aquilo pelo qual acreditamos, juramos e nos dedicamos de corpo, alma, músculos, ossos, veias e artérias, sistema nervoso e digestivo, células, átomos e no meu caso inteligência que é: “A Besteilogia para 2009 - ou vai ou racha”. Porém esta pessoa que assumiu seu posto neste dia já foi convidada para o congresso “França-Brasil” realizado no Recife unindo os alguns nomes da besteirologia atual.

Se quiser saber mais procure aqui mesmo no Blog, mesmo porque minha inveja não me permite dizer mais sobre o assunto. Mas retomando, esta pessoa retorna dizendo: Vim para ficar! E é com grande orgulho que apresento oficialmente Dra. Lola Brígida.

Mas pensará você que fiquei lamentando a presença de minha digníssima parceira? Não! Ao lado do nobre Dr. Zequim dediquei-me a filosofia. Então, uma reflexão veio à tona: “Será que a transgressão para mundo contemporâneo é a gentileza?” Este tema foi muito debatido. Assim comecei a refletir sobre o pensamento que leva a um outro pensamento, gerando um terceiro pensamento que faz com que você pense, reflita e perceba e o primeiro pensamento é igual ao terceiro e que o segundo não tinha menor importância mas que ao ouvi-lo você respeita o que é diferente, construindo assim, um mundo melhor, com mais qualidade de vida. Pois a vida, é bonita, é bonita e é bonita!

Marcio Douglas - Dr Mané

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O palhaço se revela no outro - Doutores da Alegria e Le Rire Medecin

Abril 5th, 2009 de Doutores da Alegria

M A R A C A T U - Take me into your world!

Le Rire Mèdecin e Doutores da Alegria viveram a aprendizagem da sensibilidade. Aprendemos coisas uns com os outros, na relação. E com confiança e admiração, trocávamos os nossos tesouros. Uma coisa é certa: nós promovemos boas misturas. Palhaços brasileiros e palhaços franceses: maracatu, samba musete, e enfim, A “garota de Ipanema” iria mesmo cantar “La Vie en Rose” em ritmo de samba!

MIOLINHO MOLE – O humor do palhaço está no coração… No Miolinho nossos batimentos se encontraram.

O carnaval é o espaço apaixonante onde livremente as pessoas se expressam e extravasam. E como fazer o carnaval adentrar o espaço-hospital?

Já fazemos o bloco do “Miolinho mole – o bloco mais bobinho do mundo” há três anos nos hospitais que atuamos. O Miolinho, que surgiu a partir do Bloco do miolo mole – o bloco mais bobo do mundo, uma ação criada para compartilhar o nosso trabalho com toda a sociedade recifense, não podia ficar fora do intercâmbio. Queríamos compartilhar com o Le Rire essa experiência, que tanto reforça a nossa identidade pernambucana. O grupo francês não se fez de rogado e até aprendeu a tocar e cantar algumas marchinhas de carnaval. Então, 25 palhaços chegaram munidos de muita alegria e música para fazer o carnaval no hospital Oswaldo Cruz – carnaval fora de época, diga-se de passagem.

Para nós foi uma dupla surpresa: primeiro ver as crianças e o povo do hospital no clima carnavalesco, mesmo que já não fosse carnaval, e depois ver os franceses suando a camisa, pulando carnaval, cantando “alalaô” e se divertindo como ninguém!

O dia do Miolinho é um dia especial e atípico. O atendimento não é feito pela dupla e individualizado, mas ao contrário, atinge todas as pessoas que estiverem passando, pacientes ou não, dispostas a brincar, com todos os palhaços juntos. O hospital todo se enche de festa e beleza. Aqui, a nossa tão falada “linguagem do palhaço” atinge o seu ápice – sem fronteiras, sem desigualdades ou preconceitos. Ver um paciente segurando o seu soro, cantando, dançando, olhando pra vida e lutando por ela, é algo impagável.

No Miolinho aproveitei para me encher de orgulho e nada falar, mas olhar pros nossos amigos franceses e convidá-los para essa “bagunça gostosa”, onde paralelamente acontecem mil encontros e como num roteiro, uma grande rede dramatúrgica se constrói a partir desses encontros. São tantas trocas de olhares, tantos sorrisos dispensados, abraços, disposição, que por breves instantes me pergunto: “estamos mesmo em um hospital?” e penso “como seria um bloco de carnaval num hospital de Paris?”

CABARÉ SAMBA-MUSETE: Receba as flores que eu te dou…

Ensaiamos o Cabaré em três dias. Patrick e Margot fizeram uma direção artística. Música francesa e brasileira, cenas e números, passagens do “Chaochi”. A fila estava grande fora do teatro e algumas duplas trabalharam no improviso com o público enquanto esperavam para entrar. Os improvisos se deram de forma muito divertida, o público admirado, olhando os franceses e revendo os palhaços brasileiros. Muitas crianças – e com o Cabaré tivemos certeza que o nosso público é fiel, comparece. Eu e Brócoli pudemos trabalhar juntos novamente e foi tranqüilo, a gente já se entendia. O Cabaré foi um lindo presente para o nosso público, mas sobretudo para nós mesmos. O ano da França no Brasil foi rico por essas bandas, e o público recifense ganhou 25 palhaços cantando a música de ninar “Elephanteau”, um dos pontos mais emocionantes do espetáculo. A tônica do espetáculo foi o amor. Regado de amor e poesia, o Cabaré finalizou o nosso intercâmbio com chaves de ouro.

NO HOSPITAL – o lugar máximo da troca. Escuta significada.

Mary En (Doutores da alegria Recife), Lola Brígida (Doutores da alegria São Paulo) e Brócoli (Le Rire Mèdecin): Hospital Imip – HGP

Toda primeira vez implica em: Desafio. Estávamos os três numa ala nova, nos conhecendo e cheios de vontade de jogar. Então tudo era novo. Os palhaços, as pessoas, as enfermarias – triplo desafio.
Duas palhaças brasileiras e um palhaço francês. Bem, as duas falam português, dois falam francês, os três falam inglês. Ok. Mas nem uma das linguagens foi vastamente utilizada. O que aconteceu foi que trabalhamos no campo do “não-verbal”. Esse lugar foi bastante falado nas rodas de conversa, e claro, nos primeiros dias, ainda não tão claro, principalmente para os palhaços anfitriãos, que tinham a preocupação de receber os franceses, de apresentar o hospital, de “cuidar” do todo.

Tivemos alguns atendimentos ainda confusos, principalmente de manhã, mas com o passar do dia, fomos nos entendendo, no campo do comum, onde o palhaço ativa o olhar e a escuta e onde a linguagem, que é universal, é a linguagem do palhaço.

Então percorremos um dia bem surpreendente, com encontros muito bons, com momentos grandes, ampliados, onde havia a participação de toda a enfermaria e momentos pianinho, num leito.
Para citar alguns momentos muito bons desse dia de trabalho:

-Primeiro interagimos com as enfermeiras de plantão, Brócoli conquistou todas de uma vez e Mary En tratou logo de achar a dona da calçola enorme. Alguém apontou que a dona era a Lola e ela fez várias tentativas (sem sucesso) de vestir a calçola. Brócoli foi ajudá-la e voltou todo enroscado com ela e a calçola. Enfim, muitas risadas e braços abertos para o nosso dia de trabalho. O interessante é que no final do dia resgatamos o mesmo jogo.

Ainda nos corredores, pude perceber o quanto o Patrick (Brócoli) lida com o absurdo – garantia de um bom trabalho para o palhaço. Se ele via um ventilador, se deixava “levar pelo vento”, se via uma porta de um armário, abria como se fosse entrar numa sala. E travou um encontro com nada mais nada menos que o hidrante. Então, muito dispostas ao jogo, nós, duas tontas de plantão, embarcávamos nessa loucura artística e os três intensificavam o trio. Fui obrigada a pedir ao Sr.Hidrante que deixasse o Brócoli partir, pois ele tinha muito trabalho pela frente. O jogo foi intenso, corporal. O que foi bom também para o Le Rire, pois é bom em geral para o palhaço não usar o verbal, que escorrega geralmente para o cotidiano. Para acontecer com fluidez precisamos ter muita escuta e respiração no jogo. Usamos muito a porta – produzimos imagens nas entradas.

-Na primeira enfermaria conhecemos um menino que assoviava muito bem e o chamamos de “passarinho”. Ele ficou no jogo todo o tempo, que desencadeou num outro encontro. Brócoli olhou para uma senhora que lhe abriu um farto sorriso então ele falou com o sotaque francês:

-Mi amor!

Imediatamente toquei no kasuo uma música de amor e os dois dançaram como dois pombinhos.

Enquanto isso todas as outras pessoas, adultos e crianças (mais ou menos 20 pessoas estavam nessa enfermaria) se divertiam com a cena. De repente olhei para um menino, sentado ao lado de sua mãe e o mesmo jogo se fez entre nós dois. Lola e Brócoli jogaram todo o foco pro “casamento” entre Mary En e o pequeno paciente. Brócoli propôs uma foto de toda a família e nesse momento, muitas pessoas foram inclusas no jogo, inclusive as enfermeiras. A “foto” foi feita e os três palhaços avistaram uma menina pequena em sua cama do outro lado da enfermaria. Fomos lá e do meio do seu lençol florido, surgiu uma pequena flor, encontrada por Mary En – Aqui trabalhamos no pequeno, no suave. Nessa enfermaria passamos por vários momentos de grande e pequeno e quando saímos, as pessoas nos aplaudiram. Pensei “meu Deus, eles nem imaginam o quanto foi desafiante”.

Na enfermaria seguinte tivemos uma contribuição preciosa de um médico. Enquanto Mary En “dormiu”, Brócoli e Lola encontraram o príncipe encantado dela. E quando ela acordou, lá estava ele, o médico-príncipe, ao eu lado, para casar! Bom ver os pacientes morrendo de rir! E gostoso ouvir do médico, bem baixinho, como que para não quebrar a magia, “infelizmente não vou poder continuar a brincadeira até o casamento, porque tenho agora uma cirurgia”.

Nessa mesma enfermaria, Brócoli fez uma mágica (com a caixa de fósforos), quando ele acabou, eu também fiz a minha mágica (a mamãe ganso que pega o filhote com o bico) e depois eu olhei pra Lola e falei: “agora é a sua vez!”. Ela olhou, gaguejou, olhou de novo, mexeu nos bolsos e para nossa surpresa, tirou um cordão e fez uma mágica! Muito bom, aqui o elemento surpresa, o encadeamento do jogo, a construção dramatúrgica, o foco, o feed-back das crianças, tudo se conectou, tudo funcionou, num começo-meio e fim perfeito.

Lá embaixo encontramos os outros palhaços que estavam atendendo em outra ala, e foi um bom encontro, com música, saímos juntos para a sala. Antes porém, Brocóli, Lola e eu, entramos na salinha do microfone, que tem uma janela de vidro e uma placa: “não bater”. O primeiro a dar cabeçadas (técnicas, claro) foi o Brócoli, que arrancou das moças da sala um sorriso e um convite para entramos. Lá dentro ninguém nos segurou. Lola, sabiamente agarrou o microfone e falou “atenção senhoras e senhores do bloco cirúrgico, venham todos para a saída do bloco do miolo mole”. E pensar que todo o hospital ouviu isso!

Enne Marx
(Dr Mary En)

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Recife, 31 de marco de 2009

Abril 1st, 2009 de Doutores da Alegria

Cheguei em recife no dia 25, para a segunda parte da jornada de intercâmbio com o grupo Le Rire
Medecin!

Um frio na barriga, pois chegar assim, no meio do processo, é sempre delicado; mas a generosidade e a alegria coletiva eram a tônica desse grande encontro e entrei na roda como quem chega em casa para uma festa com velhos amigos! Já entrei no meio do ensaio para a apresentação do Bloco do Miolinho Mole.

Abençoado por Nossa Senhora do Timing, entrei na festa, ou melhor, no ensaio, com muito entusiasmo.
Dia seguinte, todos estamos no hospital Oswaldo Cruz para o desfile, nos trocando numa grande sala e aí vejo ter início um espetáculo ao qual o público não tem acesso: a preparação, a maquiagem, e o ritual do aquecimento para entrar em cena. À medida que os artistas vão se maquiando e vestindo seus figurinos elaborados com riqueza de detalhes, vejo os palhaços começando a chegar, através dos pequenos tiques, movimentos e sons. À medida que vão ficando prontos e começam a trocar olhares, interações começam a ocorrer e os instrumentos musicais começam a ser afinados.

A música entra em cena criando a liga entre os todos os palhaços, que cantam para sintonizar-se uns com os outros e com o grande público que iremos encontrar. Saímos da sala, já uma procissão boba e festiva, que brinca com todo mundo a caminho do pátio central onde o desfile ocorrerá.
Cenas inesquecíveis:
Um senhor abatido, tomando medicação intravenosa, que observa a princípio, e aos poucos se envolve até ser tirado para dançar e aceita o convite da palhaça para o baile!
Médicos, residentes, enfermeiras, profissionais de saúde e pacientes, adultos e crianças entram na dança contagiados e contagiantes, brincando carnaval em fim de março.

Num determinado momento, cantamos a música sobre a cabeleira do Dr. Eu Zébio, pretexto para arrancar sua peruca e jogá-la para as outras pessoas, como num jogo de bobinho; é quando a Dra. Madeleine, do Le Rire Mèdecin, tira sua peruca rosa-choque chanel 220 volts e coloca na careca do nosso Dr. Eu Zébio, que fica engraçadíssimo no novo tom capilar. Olho de novo e vejo a peruca do Dr. Eu Zébio na cabeça da Dra Madeleine. Essa passagem me mostrou que estávamos, decididamente, vivendo um intercâmbio, no seu melhor e mais amplo sentido. Somos uma grande e amorosa família, querendo aprender cada vez mais como refinar o ofício da besteirologia!

AI!
AI ,AI, AI !
AI, AI, AI, AI, AI, AI, AI!
O MEU MIOLO É MOLE!

(grito de guerra do bloco do Miolinho Mole)

Wellington Nogueira

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Fechando o dia: Doutores e Le Rire Médicin!

Março 31st, 2009 de Doutores Recife

Dia de Visita!

Foi um trabalho belíssimo feito por Dr. Lui e Dr. Eu (Luciano Pontes e Fabio Caio), eu (Heraldo Firmino) e os palhaços do Le Rire, ficamos muito impactados com a força do trabalho da dupla. Mostra que palhaço é igual ao vinho: quanto mais velho melhor! Se bem que tem muito palhaço virando vinagre por ai rs!

O dia seguiu com muitas risadas e vários comentários e olhares atentos da dupla francesa. Lá pelas tantas eles estavam cansados de seguir aqueles dois palhaços intrépidos e sem sossego (o hospital é grande e caminhamos muito. Muitas pessoas no caminho e dá lhe jogo de cena).

O trabalho estava quase no fim, faltavam 3 quartos e uma criança de aproximadamente 3 anos chorava no seu quarto aos berros, caso clássico de enfermeira procurando veia para tirar sangue, e uma menininha de fraldas assustada e sem a mãe sentadinha em um banquinho de plástico. A enfermeira saiu do quarto e a outra criança parou de chorar. Percebendo a deixa, os palhaços, sem ver a pequena na cadeirinha, foram para porta do quarto. A criança que estava com a mãe queria os palhaços ,mas pararam instantaneamente ao ver a pequena sozinha e sem companhia, ficaram imóveis. Todos os palhaços dos Doutores da Alegria sabem: criança pequena sozinha, devagar e sem movimentos bruscos! Ela esboçou um choro e os palhaços ficaram imóveis. Ela levantou da cadeira e foi andando na direção dos palhaços em seu balé a lá garrincha chegou perto, os palhaços lentamente abaixaram, ela continuou andando agora bem pertinho, pertinho mesmo e fixou seu olhar ora em um ora em outro. A outra criança acompanhava tudo em silêncio e chegou próximo no colo da mãe. Dr. Eu começou a tocar o violão, Dr.Lui lentamente pegou o triangulo… Música! Ela começa a dançar neste momento! Os palhaços embargaram a voz, Janick e Vicent também entraram no mesmo compasso, os palhaços saíram de mansinho e foram embora. A criança com a mãe deu tchau, a pequena ficou balançando as perninhas.

Depois deste momento os palhaços seguiram para outro quarto, eu e a dupla francesa sentamos em um banco, ficamos em silêncio enquanto os palhaços finalizavam o trabalho!

Heraldo Firmino - artista formados dos Doutores de São Paulo

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Impressões Digital…izadas

Março 30th, 2009 de Doutores da Alegria

Não falamos a mesma língua, mas temos o mesmo vocabulário. Somos uma só família. Diferenças? Muitas! Semelhanças? Outras tantas.

Entre os palhaços sempre existem muitas diferenças. São mundos imaginários, separados por mares navegáveis, pequenas ilhas entre as quais criamos pontes…

A PELE – A roupa do palhaço, bem como sua maquiagem, são uma segunda pele. E tem uma coisa muito linda no modo como os palhaços do Le Rire Medecin vestem essa segunda pele. Eles usam uma maquiagem bem leve, “intimista”, pra ser vista de perto; e cada um tem um jaleco personalizado. O corte de cada um é diferente, variando de acordo com sua personalidade. É uma delícia de se ver, é poético, esculpe o desenho de cada palhaço no espaço. Caroline observou que há uma unidade entre nossas maquiagens. Uma referência ao circo, e na sua percepção, talvez pela nossa cultura carnavalizada, uma máscara possível (que não agride, que não tira do palhaço a humanidade).

A CONDUTA – Quando entramos no hospital, em cada enfermaria, perguntamos às enfermeiras mais ou menos assim: “Quantas crianças temos aqui hoje? Tem algum isolamento? Alguma coisa que vocês queiram nos contar?” E aí, números em mãos, informações básicas na cabeça, partimos pra ação. Apesar desse cuidado, temos algumas surpresas. Crianças cegas, neuropatas, que sofreram alguma agressão, ou ainda que acabaram de perder o pai, ou a mãe… crianças com medo, assustadas, muito sofridas… E acreditamos que, para além dessas informações, nos relacionamos com elas, com a devida delicadeza, procurando nelas uma janela pra criarmos juntos uma pequena história, um instante de brincadeira, de música, de imaginação.
Enquanto isso, do outro lado do Oceano…

TRANSMISSÃO – esse é o nome da prática que os palhaços-camembert realizam nos nosocômios abajours (ver no glossário). Consiste em chegar no hospital e, à paisana, encontrar as equipes de cada enfermaria pelas quais passarão mais tarde, para uma longa conversa. Eles tem uma lista com o nome de todos os pacientes que irão visitar, e passam criança por criança, recolhendo da equipe informações de todo tipo (médicas e pessoais) Isso lhes permite, a seu ver, atuar com mais liberdade e correr riscos maiores.
A saber: sempre achamos que saber muito pode significar não se permitir atuar de um modo imprevisível, inesperado. Exatamente o contrario do que eles revelam. Para eles, saber muito significa libertar-se de cuidados que o “desconhecido” requer. E agora nos perguntamos: saber ou não saber? Eis a questão.

O RECHEIO – Diferenças a parte, temos muitas semelhanças. Somos todos caçadores de olhares. Buscamos os olhos da crianças, os olhos do parceiro, e nos deixamos conduzir por aquilo que eles dizem. A escuta está no ouvido, nos olhos, no corpo todo (como observa Patrick, dr. Brócolis). E amamos a bobagem, as bobices. E o problema da língua? A pergunta que não quis calar: como vai ser entrar em cena, na grande cena que é o hospital, acompanhado desses seres luso-analfabéticos? Quando suprimimos as palavras descobrimos rumores, resmungos, gestos, olhares que se potencializam, se presentificam, e tornam a nossa comunicação menos verbal, mais sonora e corporal.

JOYEUX ANNIVERSAIRE
Um dos nossos companheiros-souvenirs resolveu nascer no dia 20 de março, a saber, ontem. Grandes preparativos para comemorarmos seu aniversário depois de uma semana com tantas novidade, que asseguramos, não foi uma semana, foi um mês. Presentes: uma rede de casal, uma boa garrafa de catchaçá Germana, um kit bloco do miolo mole, e claro, um delicioso bolo de chocolate. Nossa sexta-feira começou com uma visita à casa-museu Brenand, com direito à presença do mesmo, para a admiração de todos. Em seguida, uma fatídica parada turística na praça central, para um abraço no baobá. Depois, uma passagem a jato pelo mercado são josé, um almoço “vite-fait” no Extra, e ensaio de musica na sede. E pra fechar a jornada de trabalho, fomos todos à praia, (20 palhaços, entre franceses e pernambucanos, paulistanos, mineiros) para um ensaio de MARACATU!!!!

De Beatriz Sayad, coordenadora artística e Luciana Viacava dos Doutores da Alegria de São Paulo, sobre o intercâmbio entre Doutores e Le Rire Médicin

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Arte: uma linguagem universal

Março 26th, 2009 de Doutores da Alegria

Le Rire Médicin no IMIP

Texto de Cícero Silva (Dr. Titetê dos Doutores de BH) sobre o intercâmbio do grupo francês Le Rire Médicin e os Doutores da Alegria de Recife.

Tudo começou num café da manhã no hotel quando ficamos sós eu e Jeannick. Eu, mineiro da gema, ela francesa. Como dialogar parecia um abismo intransponível que se abria entre nós. Então, me pus a cantar: “Se você, minha querida, aceitar o meu amor, eu serei mais feliz do que sou…”. Ela, musicista de primeira categoria pegou a melodia em seu português sambado, e cantou comigo! Nossos rostos se abriram, os olhares se iluminaram e nos tornamos amigos para sempre. Nossas diferenças se dissiparam e o tempo passou.

Com a chegada de Caroline à mesa, Jeannick cantou para ela, que imperativa disse:“Cícero, você vai ensinar esta canção a todos em nosso ensaio à tarde!”. “Está bem” eu disse, e assim começou nosso encontro regado de trocas maravilhosas.

Eis o poder e a força da Arte, onde não há espaço para a linguagem verbal, a comunicação cotidiana e convencional, abre-se um espaço infinito, imensurável, que converge todos os sentidos para uma única coisa, a comunhão e a cumplicidade, na união de todos os povos, através de uma linguagem universal – a Arte.

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Começa o trabalho! Doutores e Le Rire Médicin

Março 24th, 2009 de Doutores Recife

Inicialmente, a idéia inicial era do grupo Le Rire Médicin ir para o Rio de Janeiro ou São Paulo, mas não deu certo. Caroline, palhaça da trupe, ficou muito chateada. O patrocinador propôs outra localidade, foi quando ela olhou o site dos Doutores e descobriu Recife, conversou com Wellignton Nogueira (fundador da ONG) e o patrocinador topou e ficou mais feliz, porque pode trazer 10 palhaços de sua equipe.

No Brasil, chegamos de palhaço e conversamos com a enfermagem sobre os pacientes, na França eles vão de cara limpa (sem maquiagem de palhaço) fazem uma reunião com a equipe medica e só depois começam trabalho, essa diferença gerou muita conversa e identificamos estratégias diferentes neste tipo de abordagem, cultura diferente ,sistema de saúde diferente, eles visitam cerca de 25 a 30 crianças, aqui muitas vezes chegamos a atender 90 no mesmo dia, isso ficará mais claro quando aportarem nossa realidade hospitalar, outra curiosidade e que eles muitas vezes acompanham os procedimentos são convidados a isso,nós não, por questões que já foram amplamente discutidas ,mas ouvindo o relato deles e justo.

O trabalho está sendo realizado em 4 hospitais: Hospital Barão de Lucena, Hospital Oswaldo Cruz, Hosptial da Restauração e Imip.

Dividimos as duplas e trios que vão trabalhar palhaços do Le Rire e dos Doutores , mas antes eles observarão o trabalho no hospital com os palhaços daqui.

Bom por enquanto é só pessoal.
Heraldo

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Palhaço é palhaço

Março 20th, 2009 de Doutores da Alegria

Aqui, ou em qualquer outro lugar do mundo!

Desde a última 6ª feira, dia13/3, 10 atores do grupo francês Le Rire Médicin estão em Recife com os Doutores da Alegria para um intercâmbio palhaçal!

E como franceses e brasileiros se entendem??

Leia a matéria que saiu no Diário de Pernambuco aqui!

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