Power to the People

Novembro 21st, 2008 de Doutores da Alegria

Ok, é sabido que nós, os Doutores da Alegria, quando estamos em ação, nos relacionamos, além das crianças, com os pais e profissionais do hospital. Um desses profissionais é o segurança. Ok, também é sabido que nós tentamos evitar ao máximo as piadas feitas e previsíveis - não reside aí a essência de nosso trabalho - e no caso do segurança, hé hé hé, como é quase impossível passarmos batido por sua postura sempre austera sem fazermos alusão a seu poder, tentamos na medida do possível (e nem sempre é possível) sermos originais. E então, justamente para tentar evitar o lugar comum, cada palhaço tem seu código. Uns morrem de medo dos homens de preto, com cabelos aparadíssimos e impecavelmente engravatados; outros tentam ser amigos deles; alguns ousam bater continência para eles; outros ainda se mostram familiares com os QRU, TKS, QAP, Positivo Operante, Câmbio final, que saem dos radinhos deles. E na última semana, uma novidade, assim saída de supetão, surpreendeu o segurança do Hospital Universitário, em São Paulo. A dupla de palhaços atravessava um corredor quando avistou o segurança, impassível em sua tarefa de assegurar a calma no recinto, e, sem muito o que dizer ao engravatado de radinho, disse-lhe apenas um “oi”, respondido pelo engravatado de radinho com um discreto aceno da cabeça. A dupla deu mais alguns passos e de repente parou. Um dos palhaços, muito encafifado com certa semelhança, volta-se para o segurança e, tremendo de orgulho, pergunta-lhe: “Por acaso o senhor não foi eleito ontem presidente dos EUA?” Era a notícia do dia, Barack Obama estava estampado na capa de absolutamente todos os jornais do planeta; episódio histórico, seja pelas questões éticas (e étnicas) que tal vitória traz à tona, seja pela simples esperança de um mundo mais pacífico - e por isso mais seguro. O fato é que aquele homem engravatado, profissionalmente sisudo, ali naquele corredor de hospital, abriu um sorriso espontâneo e riu da comparação do palhaço - que também era espontânea. Como sempre, as gags e piadas são um risco tremendo para nossa profissão. Estamos constantemente no fio da navalha e, de duas uma, ou transformamos a mecanicidade do chiste em algo vivo, ou chafurdamos no terreno movediço do mal gosto, da redundância e, pior - do preconceito. Não sei o que o Excelentíssimo Presidente Dos Estados Unidos da América, Mr. Barack Obama, teria achado desse episódio ocorrido no corredor de um hospital paulista, mas aquele agente de segurança - e o próprio palhaço - pareceram bastante satisfeitos com o poder da comparação, com o poder jamais atribuído, mesmo em piada, a um Excelentíssimo Engravatado de Radinho.

Por Nereu Afonso da Silva
(Dr. Zequim)

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Uma resposta

  1. Cleia

    …Só podia ser coisa dele mesmo:Zequim! Só ele pra encontrar Obama no HU!!!
    Mas,o que surpreende não é o ‘quê’ consegue encontrar e sim ‘como’ encontra e ainda mais como conta o que achou.Surpresa pra nós, reles mortais,todavia natural aos poetas, como àquele que achou que a pedra no meio do caminho,que viu a pedra e contou sobre ela…
    “- Vai, Alécio, ver.
    Vê e reflete o visto, e todos captem
    por seu olhar o sentimento das formas
    que é o sentimento primeiro - e último - da vida.” - Carlos Drumond de Andrade.

    Não poderia esperar menos sutileza desse palhaço ‘descarado’ (pois Vinícius também era) de alma de poeta.

    beijo, Nereu José Afonso Joaquim da Silva …Bonito,Bonito, Bonito …

    ‘tia’ Cleia ! rsrsrs
    P.S Apareça.A casa é sua.

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