Encontros
Bem…, vamos começar pelo início! Sou palhaço, mas não vim do circo! Minha formação é como ator, e na minha caminhada, entre idas e vindas, meu caminho cruza com o nariz vermelho! Tchan, tchan, tchan, tchan, veio uma libertação, e finalmente eu poderia estar em cena trabalhando radicalmente para o outro, junto dele, e revelar o prazer de estar em cena me divertindo, divertindo, era inovador e transgressor.
Assim se deu o início da minha busca pelo direito de usar esse nariz - muita responsabilidade! Desde então vira e mexe tô junto com o povo do céu azul e vermelho, ora com estrelas prateadas, ora com rede de segurança, e ora levantando as lonas laterais para o vento não derrubar tudo. E sinceramente, me dava uma pontinha de angústia sempre que falava de meu oficio, ao ter que explicar: não sou de circo! Bem, eles generosamente me corrigiam: “Como não? Não é palhaço?” Aí me sentia confortado, apesar de às vezes ainda falar isso de vir do teatro…
Então veio o primeiro encontro! Léris Colombaione! Isso sim foi meu batismo, uma história que vem de uma família desde a idade média, da Comedia Dell’arte… Agora eu tinha ancestralidade!
Vida que segue, estou eu viajando com os palhaços do Doutores da Alegria - três meses de viagem, como família, como família de circo, e após mais uma apresentação [do espetáculo Inventário], dessa vez na cidade de Araraquara -, quando ao final da apresentação, entre as pessoas que vêm nos cumprimentar, conhecemos Joelma! Figura de pessoa! Empolgada e falando muito, entre elogios e parabéns, nos revela sua origem: CIRCENSE! Ficamos animados por sermos parentes e vamos falando e ela revelando mais sobre ela, sua mãe, que não era palhaça, pois mulher, nessa época, não vestia essa máscara, porém era ela, a mamãe, que ensinava reprise aos futuros palhaços e ia mantendo a tradição, mais um pouco de conversa e suspiros quando então Joelma nos fala de seu trabalho à frente de uma associação de circos, e nos revela que próximo ao teatro havia um circo que apresentava circo-teatro. Nos olhamos surpreendidos e excitados: CIRCOTEATRO! Bem, essa modalidade de espetáculo só existe no Brasil, criação do Benjamim de Oliveira, negro, descendente de escravos (olha a tal da ancestralidade), pensa, repensa e… fomos para o circo!
Chegamos lá e fomos recebidos como parentes de longe, a função estava acabando e deu para ver o Buchechinha ser aplaudido por todos, e muito gritado por todas as crianças. Iniciamos a conversa com a mãe do Buchechinha e em seguida estávamos (as duas famílias) sentados embaixo da lona, rindo, trocando experiências e extremamente felizes de estarmos juntos. Generosamente, eles vão nos revelando uma história que vem do avô do Buchechinha. (será o Buchechão?) E rimos muito vendo as crianças da família mostrando seus talentos cômicos, com orgulho de saberem que estão levando em frente tanta história. Mas como esse povo não é bobo, ou só é profissionalmente, eles não estão só com a cabeça no passado, estão com olhos no futuro, e o Buchechinha tem em Araraquara um programa de TV! Não, não é um previsível programa infantil! Trata-se de circo-teatro na tela, auxiliados por uma moçada de áudio-visual. Vimos, encantados, Buchechinha e sua mãe na tela fazendo o que fazem de melhor, se divertindo e nos emocionando, afinal de contas o que é uma senhora fazendo molecagem e tanta bobeira com a propriedade que a Buchecha-mãe tem? Após várias fotos, abraços, ida ao banheiro do trailer, promessas de contato e de voltar a visitar a família, nos despedimos e partimos, sonhando com céu de estrelas prateadas e o nariz cheio de orgulho!
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