Las Cabaças - Palhaças Amazônia adentro
As atrizes dos Doutores da Alegria Juliana Balsalobre e Marina Quinan - Las Cabaças - embarcaram no dia 10 de abril para uma jornada de um ano na Amazônia, com o projeto “Brasil na Cabaça - Palhaças em Itinerância”, idealizado pela própria dupla.
O objetivo é levar a arte do palhaço para lugares de difícil acesso, onde ninguém espera sua chegada. As palhaças percorrerão cinco Estados: Amazonas, Acre, Pará, Amapá e Maranhão, onde atuarão nas comunidades ribeirinhas, indígenas e quilombolas. A itinerância combina apresentações e encontros com palhaços locais, mapeando a produção artística da região.
O trabalho é um desdobramento da pesquisa contínua dos Doutores da Alegria sobre o potencial transformador da experiência do palhaço e o impacto do encontro deste arquétipo junto às comunidades.
A viagem será registrada em diários, vídeos e fotos que serão veiculados na Internet, possibilitando o acesso a todos os interessados.
Abaixo, confira o primeiro relato enviado pela dupla e confira o vídeo na TV Doutores da Alegria.
O Céu do Mapiá
De 13/04/2008 a 22/04/2008
O Céu do Mapiá (AM) é a tradicional comunidade do Santo Daime. O Santo Daime é uma doutrina iniciada por um Maranhense de quase 2 metros de altura chamado Mestre Irineu, que chegou ao Acre no início do século passado. Era seringueiro, soldado da borracha e ouvi dizer que foi integrante da comissão Rondon em 1907. Ele aprendeu com os índios os rituais com uso milenar da ayahuasca e a re-significou traduzindo para o catolicismo. Recebeu hinos que são cantados até hoje.
Sebastião Mota de Melo (então líder de uma comunidade daimista na Colônia Cinco Mil e discípulo de Irineu) teve a iniciativa de fundar uma comunidade que vivesse de forma comunitária e auto-sustentável no meio da floresta, onde todos plantavam, colhiam, abasteciam um galpão e dividiam todo o mantimento em iguais partes. Fundaram a Comunidade no Seringal Rio do Ouro, depois de alguns anos foram expulsos de lá pelo dono das terras. Disseram que ele não deixou ninguém pegar nada além dos terçados. Nem fecharam as janelas das casas, e seguiram para o lugar que desde 1982 é o Céu do Mapiá. Sebastião faleceu em 1990, “fez a passagem”, como dizem. Hoje o padrinho da comunidade é Alfredo, seu filho.
A cidade de Boca do Acre é assim chamada por ser o lugar onde o Rio Acre deságua no Purus. Fica a 200 Km de Rio Branco, mas demora umas 6 horas para chegar de ônibus, estrada de terra e chacoalho. De lá pegamos uma canoa motorizada, viajamos por 10 horas com o atento e simpático piloto Sorriso (que recebeu esse nome na Capoeira, pois: “Na ginga era só rindo”, disse ele) pelo rio Purus e, depois de muito navegar, ou melhor, canoar pelo igarapé do Mapiá, que está ainda em cheia, flutuamos por entre as copas das árvores.
Fui comprar pão e fui atendida por duas menininhas, uma de uns seis anos e outra de cinco. A mãe delas estava deitada com dor de malária. Já era tarde da manhã e como a vida ali começa muito cedo:
- Tem pão?
- Agora só de ontem.
- Me dá 4.
Aqui está fazendo um clima que nunca pensei encontrar. Faz frio. Conhecemos o padrinho Alfredo e pedimos as devidas autorizações para trabalhar e registrar o trabalho. Seu coração salta pelos olhos, tem o sorriso leve de uma paz contagiante.
Conhecemos Oswaldo, que nos apresentou à vila, seus antigos moradores. Conhecemos a igreja, os túmulos, vimos uma senhora arrumando as flores com tanto zelo. Outras preparavam a igreja para a concentração que será hoje à noite. A igreja é muito bonita, uma estrela de 6 pontas. Sua arrumação me fez lembrar a Festa do Divino dos outros interiores do Brasil. Aqui incorporam elementos do Candomblé, do Espiritismo e até (num encontro mais inusitado com os índios norte-americanos) o uso do peiote, nos contou Oswaldo.
A madrinha Rita, esposa do falecido padrinho Sebastião, queria muito ver as palhaças, mas, devido à idade, não conseguiria ir andando até a praça, então nós fomos à casa dela. Quando acabamos, ela disse:
- Mas só? Conta mais uma.
Contamos de improviso.
Conhecemos Nilda, a atual diretora, e com ela conversamos por muito tempo sentadas na beira do igarapé. Fomos à escola convidar os alunos para a apresentação. Oswaldo nos ajudou a escolher a melhor data e horário: domingo às 15h, para poder começar às 16h, quando o sol baixar.
Na casa de farinha, Bifi começa a descascar mandioca.
- Com a ajuda da humanidade, vai mais rápido. Disse o moço.
Como Quinan não sabe se é humana ou não, não foi.
O Centro de Medicina da Floresta é onde são feitos os remédios naturais e onde conhecemos Joana, Renata, Kabir e sua irmã. Compramos o anti-malárico e repelentes de andiroba.
No sábado fizemos uma apresentação no Prato Raso, a convite da Liliana. Para lá chegar era preciso caminhar por meia hora na mata, onde vimos duas espécies de macacos: o macaco de cheiro e o puruaku, este era grande e peludo, mas tão peludo que parecia um gato siamês gigante. Depois da apresentação, voltamos para a vila na última hora da luz solar. Entramos na mata com a lua no primeiro dia minguante, grande e baixa. Vimos o sol se pôr de dentro da floresta, o céu alaranjado e o restante da luz na clareira. Bonito demais.
Participamos da festa de aniversário da Marina, italiana que mora aqui há uns 30 anos. A noite esteve prateada. Linda!
Fui comprar 1 litro de gasolina para colocar no gerador e ligar a Internet, que Roberto ligou depois do expediente.
Nosso último dia aqui no Céu do Mapiá. Dia bonito de sol, almoçamos na casa da Gabriela. Chegamos à praça para arrumar os bancos para as pessoas sentarem. As crianças já estavam todas arrumadinhas, banho tomado, ansiosas, esperando as palhaças. Fomos nos arrumar na casa de Regina, que originalmente era de padrinho Sebastião, por isso tem sua força, memórias e imagens. A praça ficou cheia. A apresentação começou às 16h30. Entramos em cena e um cachorro chamado Manolo fez a festa: primeiro roubou a vassourinha de Quinan, mas as crianças conseguiram recuperar, depois, na cena do salto no copo d’água, bebeu e derrubou toda a água. No final, quando chegou a hora do agradecimento, o fizemos de coração.
Oswaldo me contou que aqui perto tem um igarapé de nome Quinã, parece que é uma variante do nome de outro igarapé chamado Quimiã. Segundo informações do padrinho Alfredo, seu irmão Valdete, encontrou o Quinã procurando o caminho para Quimiã e passou a chamá-lo assim até por dificuldade de pronúncia. Bem, assim se escreve a história…
Agradecemos de coração à: Isis, Bruxinha, Liliana, Oswaldo, Nilda, padrinho Alfredo, madrinha Rita, Gabriela, Raimundo, Jefe, Yasmin, Maria Eugênia, Irene, Anaruês, Marina, Sorriso.
Las Cabaças
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Maio 14th, 2008 às 08:08
Estou com vocês de novo… lembram de mim… sou o Anonimo da outra viagem…
Outubro 17th, 2008 às 23:18
Estou muito feliz por ter conhecido vocês na passagem em Mancio Lima. Gostoria de parabenizar a todos.
Um abraços a todos!
Ivanilde e Saimon
Abril 15th, 2009 às 22:31
Párabens pelo trabalho lindo que vocês realizam,sou técnica de enfermagem e acho que o melhor caminho para recuperação infantil é levando a alegria até eles.
Vocês devolvem a eles a vontade de viver e lutar pela vida!
tenho certeze que vocês são seres iluminados e predestinados por DEUS para realizar essa caridade…porque isso não é um trabalho nem um serviço voluntário é a caridade
sendo praticada em serviço da vida!!
Admiro muito vocês e sinto um imenso respeito pelos seus trabalhos.
Que DEUS os abençõe e lhes traga muita vida para continuar a espalhar a mesma por ai!